Fiz esse texto há 5 anos. Será que pouca coisa mudou dentro de mim?
Não, não me deixe assim tão solta
Porque quando você solta da
minha mão
me dá um quê de nervoso, um quê de abandono
Faça a gentileza
de me querer, de me prender
Saiba ser meio meu, meio do mundo
Mas que
eu sinta que posso competir com o mundo
É que às vezes eu preciso de um
cais pra aportar
de um abraço pra me aconchegar
Preciso de uma poesia
real para pôr no papel
Preciso ter certeza de que minha música tem
dono
Preciso dar espaço no meu colo
Entre meus braços há um vazio
triste
Meus dedos pedem alguém pra afagar
E os meus pés querem um par
de companhia.
Não, não me deixe solta por aí, que eu posso me perder
E aí quem é que vai me achar?
sábado, maio 02, 2015
sexta-feira, maio 01, 2015
Amor Feinho (Adélia Prado)
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.
(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 97)
quinta-feira, abril 23, 2015
O passo lento das ruas
Com os pés na calçada alagada, as pisadas lentas e compassadas. A cidade chorava. O céu desabando em um dia melancólico e bonito. Os passos ainda seguiam lentos. Como se não houvesse atraso. Como se não existissem buzinas, fumaça, guarda-chuvas, multidões e ônibus lotados.
Um guarda-chuva colorido ilumina. Uma criança sorri sem dentes. Uma réstia de luz tenta sair em meio às nuvens carregadas em um cenário bonito, digno do Divino. Um barco de papel-jornal navega para a fatalidade: a queda em um bueiro das notícias de ontem (que parecem de hoje. Ou de amanhã.).
A vida parece irreal e as ruas seguem loucas. Mas para aqueles pés, para aquela mente, lentas. Os passos seguem lentos porque o mundo dentro da cabeça parou pra sentir a solidão da vida. Não existe amor. E nem dor. Solidão. Chove e o mundo está árido.
Um guarda-chuva colorido ilumina. Uma criança sorri sem dentes. Uma réstia de luz tenta sair em meio às nuvens carregadas em um cenário bonito, digno do Divino. Um barco de papel-jornal navega para a fatalidade: a queda em um bueiro das notícias de ontem (que parecem de hoje. Ou de amanhã.).
A vida parece irreal e as ruas seguem loucas. Mas para aqueles pés, para aquela mente, lentas. Os passos seguem lentos porque o mundo dentro da cabeça parou pra sentir a solidão da vida. Não existe amor. E nem dor. Solidão. Chove e o mundo está árido.
segunda-feira, março 09, 2015
O amor começo e fim e começo e fim e começo e fim (...)
O amor, quando ele chega
Ele é meio exagerado
A gente fica adolescente
Quando está apaixonado.
Todo mundo diz assim:
Tu é besta, tu é lesada
Mas faz parte, minha gente
isso é estar apaixonada.
É querer estar por perto
e sempre achar um tempinho
E pensar que sempre é tempo
De querer se ter carinho
É se perder num abraço
Desejar beijo no rosto
É querer pegar na mão
Encostar o pé no outro
É pensar em viajar,
fugir a dois, desligar.
Fazer mil planos assim
Isso é se apaixonar.
Até o dia em que chega
o vento que leva embora
Todo esse desalinho.
Você se recolhe e chora
Aí você abre a porta,
coloca o pé na soleira,
mas se despedaça inteira
Faz de conta que tá morta.
Escreve uma poesia
Sofre como o diabo
Implora a anestesia
Quer matar o desgraçado.
Mas depois que 'cê se cura
Joga fora a amargura
Volta a ter essa ternura
De quem está apaixonada
Nem chega a fazer pergunta
Se é um ciclo assim, sem fim
Essa doença de amar
E se um dia vai durar.
Ele é meio exagerado
A gente fica adolescente
Quando está apaixonado.
Todo mundo diz assim:
Tu é besta, tu é lesada
Mas faz parte, minha gente
isso é estar apaixonada.
É querer estar por perto
e sempre achar um tempinho
E pensar que sempre é tempo
De querer se ter carinho
É se perder num abraço
Desejar beijo no rosto
É querer pegar na mão
Encostar o pé no outro
É pensar em viajar,
fugir a dois, desligar.
Fazer mil planos assim
Isso é se apaixonar.
Até o dia em que chega
o vento que leva embora
Todo esse desalinho.
Você se recolhe e chora
Aí você abre a porta,
coloca o pé na soleira,
mas se despedaça inteira
Faz de conta que tá morta.
Escreve uma poesia
Sofre como o diabo
Implora a anestesia
Quer matar o desgraçado.
Mas depois que 'cê se cura
Joga fora a amargura
Volta a ter essa ternura
De quem está apaixonada
Nem chega a fazer pergunta
Se é um ciclo assim, sem fim
Essa doença de amar
E se um dia vai durar.
segunda-feira, março 02, 2015
Nascemos sós e morremos sós
Li esse texto hoje e parece que foi escrito pelo meu analista. Não conheço a colunista Karen Kuri, mas vale a leitura e posto aqui para ler outras vezes. Porque dá tanto medo ficar completamente só?
Leia aqui!
"Sobre ideia de que nascemos sós e morremos sós, eu me peguei refletindo sobre o que acontece entre as duas pontas do pavio, entre a vida e a morte. No meio de tantos sentimentos, momentos de alegria e tristeza, prazeres, amores, frustrações, acessos de raiva e de euforia, decepções… Eu percebi que o grande medo da humanidade é mesmo a solidão.
As pessoas têm verdadeira paúra de se sentirem sozinhas. São assombradas dia e noite só de pensar numa existência ímpar, lhes consome o pavor de olhar para o lado e enxergar um vazio físico. Não é a toa que fogem pra bem longe das noites frias e domingos chuvosos, optam por sair vagando pela rua fingindo uma completude inexistente, preferindo as más companhias, um bate papo tedioso empurrado com a barriga e alguns copos de cerveja. Tudo, qualquer coisa, menos enfrentar a solidão.
Na maioria das vezes, estar cercado de pessoas faz com que a gente se sinta ainda mais solitário. Ocupar o tempo e a mente para evitar conviver conosco é o mesmo que tentar abarrotar um buraco sem fundo que nunca será preenchido. Por que tanto pânico de estar junto da própria presença? A solidão foi, é e continuará sendo a nossa fiel companheira, a única que nos entende e que nos ajuda a compreender a nós mesmos. Não adianta resistir, contestar, correr ou se camuflar no meio da multidão. Somos seres individuais, não estamos grudados ou amarrados à ninguém. E isso, seguramente, tem um significado.
Desde a fase do ventre materno nós sempre estivemos sozinhos e nessa época desfrutávamos dos nossos primeiros momentos de singularidade. Logo a vida aqui fora nos chamava, e mesmo tão pequenos, estar a sós começava a nos causar desconforto. Enquanto o pavio da nossa existência queimava noite após noite, o medo do isolamento crescia, engatinhava, dava os seus primeiros passos. Depois de algum tempo, ela ganhou corpo e se transformou no monstro que espera para amedrontar quando estamos quietos e desprevenidos. Se fosse simples assim, bastava estar cercado de gente para que ela nunca se aproximasse…
Não se iluda. A solidão é fiel, inseparável. Eu acredito que nascemos com ela e morremos com ela, que somos cúmplices em cada segundo. Ela nos assola e nos consola. Mesmo cercados de amigos… Estamos sempre solitários com os nossos pensamentos, percepções e sentimentos. Eu acredito que por isso a solidão é tão apavorante para alguns, porque o silêncio estrondoso do vazio diz quem realmente somos, sem nenhuma máscara ou disfarce. Somos nós e as nossas angústias, pânicos, inseguranças, nossos defeitos que não assumimos nem sob tortura. Ela solta os bichos que nos comem por dentro e mostra o quanto somos egoístas, arrogantes, tolos, estúpidos, vítimas de nós mesmos. Ninguém quer ser apontado, muito menos julgado, por isso a maioria corre pra bem longe de si, e poucos são os que a encaram de frente.
Contudo, eu digo que a solidão é fascinante e absolutamente necessária. O entendimento da particularidade é o que permite absorver a nossa essência. Sozinhos conseguimos enxergar as nossas debilidades, nossos limites e loucuras. Em unidade podemos, sim, ser felizes, capazes de amar. Quem disse que não? Solidão não é sinônimo de infelicidade, de amargura, de escassez de amor. O solitário é aquele que se conhece tão bem ao ponto de preferir a própria companhia antes de qualquer outra. Para conceber o mundo lá fora é preciso entender primeiro aqui dentro. A gente se conhece no exílio para se reconhecer diante dos outros. Somos uma unidade e nos completamos assim.
Triste é a solidão do desamparo, da falta de alguém que nos ame e nos cuide. Que a melancolia e o infortúnio do abandono não se confundam com aceitação da existência como indivíduo. Porque é o nosso deserto que nos alimenta, que nos engrandece diante do mundo. É preciso estar a sós para assimilar o processo de autoconhecimento, de aprendizagem e elevação.
Eu sei que quanto mais a nossa vela queima, mais nos agarramos à outras luzes e sombras.
Nascemos sós. Morremos sós."
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