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quarta-feira, agosto 29, 2012

Vai amanhecer enfim.


Nem olhei pra trás quando eu saí
Abri a porta e zás, a rua tava ali
Nem olhei pra trás quando eu saí
Abri a porta e zás a rua tava ali
Só me importava saber que eu não esqueci
O remédio pra tomar e roupa pra vestir
O sol irá quarar, o sol irá despir
O sol irá se pôr, o sol irá luzir
Enxuga o pranto vai amanhecer
Enxuga o pranto vai amanhecer
Vai amanhecer enfim.

quinta-feira, maio 06, 2010

Dos valores

Porque eu posso suportar que me chamem por outro nome. Posso suportar que deixem de me amar. Posso suportar que não queiram mais me ver, que se decepcionem comigo, mesmo eu tendo feito tudo sem querer. Posso acreditar quando me dizem que eu não presto. Posso até me perdoar por não conseguir deixar de acreditar nas pessoas até que elas me provem o contrário. Posso suportar cólica, dor nas pernas, nas costas e no coração. Posso admitir facilmente que não sou melhor do que ninguém. E posso até dizer (e digo) que sou pior. Não ouço, falo muito nas horas erradas, pouco nas horas de falar. Gosto de gastar, não sei economizar, mesmo pregando o planejamento financeiro todos os dias no meu programa de rádio. Sou muito pequena, ainda, muito pequena. Cometo, sim, uma série de pequenos pecados. Muitas vezes posso ser imperdoável. Mandona, crítica, lamento à toa, reclamo de tudo. Me altero. Corrijo erros de português sem quem ninguém me peça. Sou seletiva, preconceituosa com quem bebe, quem fuma e com muitos gêneros musicais. "Não gosto do bom gosto, do bom senso, dos bons modos". Quando quero, me irrita não ter. Sou impulsiva. Dengosa, carente, esquecida. Trabalho muito, até mais do que gostaria. Não tenho tempo e não dou a atenção necessária a muita gente.

Mas injusta, não. E mentira, nunca admiti. Não aceito. Não concordo com mentiras. Sob hipótese nenhuma. Mentiras destroem o conceito que faço de caráter. Mentiras não são aceitas no meu mundo.

Agora, doutores, gostaria encarecidamente que alguém me respondesse: porque a gente insiste em querer que os outros nos tratem como nós os tratamos? Pois eu posso respeitar os diferentes valores que cada um tem. Mas não, não consigo respeitar a falta de valores.

terça-feira, abril 27, 2010

Mas vai ser.


A cidade dorme. Na rua, o gato mia, mas tão de levinho que parece mais uma alma de outro mundo. Até ele respeita o sono, a noite, o silêncio profundo. Tem uma casa onde um pai chora, abraça uma mãe desesperadamente dolorida.

Um pai perdeu seu filho e se encheu de dor. Um filho perdeu sua vida e mudou-se com sua alma para longe. Dores se espalhavam pela cidade que dormia. Dores que gritavam, dilaceravam os ouvidos do coração. Lá dentro, quem sofria, ouvia bem o grito, o choro. Mas só lá dentro, dentro de si.

Milhares de dores, milhões. Filhos que se foram, amigos que se foram. Insegurança, egoísmo, traição, orgulho. Tudo o que gerava milhões, milhões de choros incontidos, de sofrimentos que gritavam por dentro, que implodiam lentamente, se é que é possível, quem os sentia.

Do outro lado da cidade, amigos separavam-se de amigos com muitas lágrimas nos olhos. Eram corpos inteiros que choravam, choravam por inteiro, desmanchavam-se.

A cidade escura e silenciosa guardava diversos corações. Uns dilacerados, uns bem feridos. Uns tão escuros, derramavam líquido viscoso e negro que se espalhava, espalhava seu odor e pouco a pouco poluía o ambiente, fazia arder os corações feridos, magoava-os tanto. A cidade quente às vezes ficava, sim, muito gelada.

Mas tinha alguém aspergindo um aroma de lavanda num cantinho da cidade quente-gelada. Tinha alguém desvestindo o preto e colocando cores, distribuindo sorrisinhos, gentilezas. Tinha alguém ofertando curativos , sedativos, paliativos para os dilacerados. Esses 'alguéns' eram os mesmos que faziam passar a noite e ligavam a luz do Sol. Como uma grande mão que abre uma janela blackout pra deixar a luz entrar. Tudo esquentava mais uma vez. O ar puro da manhã inundava tudo e os líquidos pretos, as invejas, as traições, os egoísmos, escondiam-se, iam morrendo, porque não suportam luz. A coisa acontecia assim, nos cantinhos da cidade. Era assim sempre, na cidade. E todo mundo chegava à conclusão de que isso era a vida. E quem disse que ela é bela?

quinta-feira, março 18, 2010

Fazendo troça com a dor.




Eu numa fossa fenomenal, naquela fase do onde foi que eu errei, naquela fase das mil lembranças, e o que é que eu faço? O que eu faço, minha gente? Ouço músicas que me trazem mais lembranças, aquelas bem ao estilo "se mata". Gravei um CD, minha gente, um CD com músicas ao estilo "Creep", do Radiohead. "I wish I was special/ u so very special/ But I'm a creeeeeeeeeeeeep /I'm a weirdoooooooooooo/ What the hell am I doing here?/ I don't belong here". Pra quem não sabe inglês, o eu-lírico basicamente se auto-esculhamba, se acha um verme, um esquisito. E eu coloquei no volume máximo no meu carro e vim pro trabalho cantando loucamente. Legal, né, como as pessoas se valorizam?

Mas eu me sinto exagerada. Se é pra sofrer, vamo sofrer. Quero alugar um filme bem triste para chorar horrores, todas as lágrimas que puder. Quero passar um tempo curtindo a fossa, ouvindo todas as músicas que me fazem lembrar, lembrar, lembrar.

É que eu sou louca? É que eu sou masoquista? Não descarto nenhuma das duas possibilidades. Mas eu acho que a gente tem que aproveitar todos os momentos, até os de fossa. Eu sempre saio mais forte depois, ainda que por enquanto eu não acredite muito nessa possibilidade e me sinta a creep, a weirdo.

Sempre que se leva um "não", sempre que se é magoada, sempre que lhe querem fazer acreditar que você não é nem nunca foi especial, você logo acredita. Você não quer se lembrar das vezes que ele te disse não, das vezes que ele te deixou esperando, das palavras duras dele. Nem muito menos da parte em que ele te dispensou sem nem mesmo olhar dentro dos seus olhos.

Você se lembra dos carinhos, das besteiras, das palavras de amor trocadas, das juras melosas de gente apaixonada, das poesias que você mandou, das poesias que você fez e mandou, de como você achava que ele combinava com você, de como ele era compreensivo e gentil. Mesmo que todos os seus amigos e parentes te mostrem todos os fatos e queiram te convencer de que ele não era tão bom assim. Você não consegue, você pensa com carinho.

É como se você estivesse com um terreno limpo dentro de si. Aí vem alguém e traz coisas para contruir nesse terreno. Te dá tijolo, te dá cimento. E você vai construindo, construindo. E, embora faltem muitas coisas pra terminar a casa, você já tem todo o projeto bem desenhadinho, você sabe como vai construir, onde vai ser o quarto, a sala de estar... Aí de repente a pessoa que te ajudava a construir some e te deixa lá com aquela obra inacabada e, agora, inútil. Aí você tem que destruir tudo, limpar o terreno todo de novo. E tinha dado tanto trabalhar pra demolir a construção anterior. Você tinha tanta fé de que agora tinha encontrado o projeto certo para o seu abrigo. Mas nem tinha, então dá-lhe trabalho de novo. Lá vai você arregaçar as mangas, pedir a ajuda dos tratores alheios pra destruir de novo aquela obra, limpar tudinho até ter material pra construir um projeto novo.

Mas, o mundo é grande, minha gente. Tem muita possibilidade por aí para se ser feliz. Tem muita gente com material sobrando pra te ajudar a construir tudo de novo, dentro de você. Tenho fé de que vou passar da fase "ele vai voltar" e "I'm a creep" para a "tenha fé em Deus, tenha fé na vida".

Mas por enquanto, enquanto a ferida é tão recente, enquanto as lágrimas jorram como na cachoeira do açude do Capão, "tire o seu piercing do caminho que eu quero passar, quero passar com a minha dor", como diria Zeca Baleiro.