segunda-feira, outubro 28, 2013

Timidez Ousada

Transcrevo aqui uma parte de entrevista pescada da Revista Bula. Nela, Clarice Lispector entrevista o grande poeta Pablo Neruda. Me identifico com sua timidez ousada. Sim, como diz Clarice, quem sofre de timidez ousada é quem pode entender o que dizemos. Vejam o trecho:

Numa manhã de abril de 1969, a escritora brasileira entrevistou o poeta chileno, que, à época, era considerado um dos mais importantes nomes da poesia em língua espanhola
"Cheguei à porta do edifício de apartamentos onde mora Rubem Braga e onde Pablo Neruda e sua esposa Matilde se hospedavam — cheguei à porta exatamente quando o carro parava e retiravam a grande bagagem dos visitantes. O que fez Rubem dizer: “É grande a bagagem literária do poeta”. Ao que o poeta retrucou: “Minha bagagem literária deve pesar uns dois ou três quilos”.
Neruda é extremamente simpático, sobretudo quando usa o seu boné (“tenho poucos cabelos, mas muitos bonés”, disse). Não brinca porém em serviço: disse-me que se me desse a entrevista naquela noite mesma só responderia a três perguntas, mas se no dia seguinte de manhã eu quisesse falar com ele, responderia a maior número. E pediu para ver as perguntas que eu iria fazer. Inteiramente sem confiança em mim mesma, dei-lhe a página onde anotara as perguntas, esperando Deus sabe o quê. Mas o quê foi um conforto. Disse-me que eram muito boas e que me esperaria no dia seguinte. Saí com alívio no coração porque estava adiada a minha timidez em fazer perguntas. Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez ousada entenderá o que quero dizer".
Leia tudo aqui. 

sexta-feira, novembro 23, 2012

Francisco Cajazeiras: amor e dedicação ao Espiritismo



Por Ariane Cajazeiras*

Escrevo silenciosamente, enquanto, diante de mim, meu pai também escreve, absorto entre trechos de livros e a tela do computador. Sempre foi assim, desde que me lembro. Mesmo quando o barulho das teclas era substituído pelo arranhar da caneta ou pelo ruído da antiga máquina de escrever automática. O certo é que Francisco Cajazeiras encarnou com uma capacidade absurda de concentração. Seja para o jogo de futebol da televisão, seja para a leitura de um livro ou na arte da escrita, que ele domina muito bem. Concentração essa que triplica quando o assunto é doutrina Espírita.
Minha mãe conta que passamos a frequentar o centro espírita quando eu tinha apenas alguns meses de vida. Ela guarda a data: 14 de março de 1987. Foi quando O Livro dos Espíritos foi apresentado para meu pai. Ou reapresentado, já que ele mesmo conta que quando começou a estudar a doutrina, imediatamente reconheceu tudo aquilo que ele pensava, mas em nenhuma religião havia encontrado. E esse amor ao Espiritismo o levou a devorar, avidamente, um a um, os livros da Codificação Espírita de Allan Kardec. Do mesmo jeito que falei no início, nessa exata cadeira em que o vejo sentado agora. Substitua o moderno notebook por uma edição antiga de O Livro dos Espíritos e talvez escureça um pouquinho os cabelos dele e verá a cena. Um estudioso em construção. Um defensor fervoroso do conhecimento multiplicado pelo mestre Allan Kardec.
A partir do primeiro contato com o Espiritismo, Francisco Cajazeiras passou a dedicar-se por inteiro à doutrina. Em menos de dois meses, engajou-se com minha mãe nos trabalhos do centro espírita e nunca mais se afastou, embora agora esteja à frente do centro espírita que fundou: o Instituto de Cultura Espírita do Ceará. Mesmo com todas as pedras no caminho, nunca cogitou deixar o movimento espírita.
Até hoje faltam prateleiras para o número de livros que ele adquire. E os lê, todos. Volta, estuda, pesquisa, relembra, relê. E empresta. Mesmo que os livros não voltem. Não há nada que o empolgue mais do que ensinar. Gosto de ouvi-lo discorrer sobre Espiritismo. Vejo a felicidade que experimenta quando recebe alguém ávido por conhecimento. E admiro a forma com que se utiliza de todo o conhecimento que adquiriu (e adquire ainda): multiplica-os e tenta aplicá-los à própria vida. E não é menos carinhoso e humano. Lembro de começar a ler Há Dois Mil Anos e confidenciar que chorei copiosamente em alguns trechos. “Espere até ler Paulo e Estêvão! A gente chora muito mais!”, disse-me ele.
Sabe, guarde bem esse segredo de escritor: quem escreve livros, não apenas repassa conhecimento, mas, antes de tudo, precisa estudar, trabalhar, lapidar as palavras para só então publicar ideias. Meu pai, embora médico, tem essa veia de escritor. E desde o início escrevia diversos textos, muito publicados em jornais de nosso Ceará, espíritas ou não. Todos devidamente recortados, colados em folha sulfite e guardados em algumas pilhas de pastas aqui em casa. Natural, então, seguir para a publicação de livros. O primeiro foi “Eutanásia – Enfoque Espírita”, que fala das diversas formas de eutanásia e a visão médica e espírita disso. Daí então não parou mais: até hoje foram doze publicados, sendo três deles psicografados.
O primeiro que li foi “Elementos de Teologia Espírita” (publicado em 2002, pela editora EME). Eu me preparava para falar sobre o Evangelho pela primeira vez, no Instituto de Cultura Espírita do Ceará. O exemplar encontra-se aqui a meu lado, com grifos por toda parte, pois adquiri do pai o hábito de destacar as partes importantes com caneta colorida. São 30 textos, com temas polêmicos, muitos interpretados de forma duvidosa até mesmo dentro do movimento espírita, como ressurreição e mediunidade. Lembro de começar a ler “O Diabo e as religiões” e não mais parar. Pois nos livros de Francisco Cajazeiras, transparece todo o lado professor dele: é uma leitura didática e fácil, mas ao mesmo tempo profunda.
 Em “O Valor Terapêutico do Perdão”, um de meus favoritos, demonstra a necessidade do perdão incondicional, como Jesus ensinou, não só de um ponto de vista ético e religioso, como também pelo fato de que sentimentos negativos de mágoa e vingança influem diretamente em nossa saúde. “A inclinação para o perdão incondicional é prova de sabedoria – maturidade intelectual, emocional e espiritual. É apanágio das grandes almas e passaporte para a paz e para a saúde integral”, diz.
                Pai, amigo, médico, espírita. Defensor ferrenho de Allan Kardec, que classifica como o grande esquecido do movimento espírita. Admirador e estudioso do grande escritor e (que orgulho!) colega jornalista José Herculano Pires. Palestrante espírita de uma retórica que me emociona sempre. Amigo amoroso, conselheiro fiel. Externa o amor em abraços e bom humor. Meu exemplo. Professor de Espiritismo e da vida. Assim é meu pai. Assim é Francisco Cajazeiras.
 
 *Ariane Cajazeiras é escritora da editora EME desde 2004, quando escreveu o livro infantil “O Coqueiro Solitário e Um Novo Irmãozinho”. Jornalista por formação e profissão, trabalhou na TV O Povo (TV Cultura-CE) e atualmente é editora de texto na TV Jangadeiro (Band-CE). Educadora por opção e amor, trabalha há mais de dez anos na Educação Espírita do Instituto de Cultura Espírita do Ceará, onde também é voluntária na área de Comunicação e Assessoria de Imprensa. Gosta de estudar, ler escrever e sorrir.


(Texto publicado na revista de livros da Editora EME (Mensagem de Esperança), edição comemorativa de 30 anos, outubro de 2012, seção "De autor para autor")

sexta-feira, novembro 09, 2012

Rule my world


"Somente alguém moralmente superior pode, talvez, honestamente merecer governar meu mundo". É isso. Gostaria de sair dizendo isso pra algumas pessoas. Definitivamente essa é uma das minhas músicas preferidas do Kings of Convenience. Pra quem não sabe inglês, a tradução da música toda, que funciona como um desabafo para mim: 

"Você se coloca acima de todos, esquecendo-se de Deus, você diz que acredita. / Sua bondade vai sucumbir, seu navio está afundando rápido e todos os seus homens estão indo embora./ Somente alguém moralmente superior pode, talvez, honestamente merecer governar meu mundo./ Eu falo antes de pensar, você atira antes de saber quem está em sua mira./ Então de alguma maneira somos iguais: você causa dor às pessoas, eu fico e levo a culpa, você tenta negar por noite a dentro./ Somente alguém moralmente superior pode, talvez, honestamente merecer governar meu mundo./ Explique-me mais uma vez: quando eles matam é um crime, quando você mata é justiça?" 

Ouçam aqui: 


quarta-feira, novembro 07, 2012

Ante as investidas do Mal

Quem maltrata e se sente maltratado,
com o coração dilacerado
Autointitula-se cordeiro
e ao irmão chama de lobo;
Quem traveste-se de probo
soldado de Jesus, ferido
E luta uma guerra imaginária,
Mal entende o que significa tolerância,
amor, caridade, confiança:
Amai-vos uns aos outros,
ensinamentos do Mestre nesta área.
Não acusem, entendam!
E vivam de acordo com o que pregam.
Ah irmão!
Palavras bonitas
empoladas, bem escritas,
não significam sentimento...
E se espalham a discórdia
não levam ao crescimento!
Não há motim, pois aqui não é quartel!
Muito menos há pessoas em busca do céu...
Aqui só há Espíritos tentando acertar
o caminho secular
da evolução do ser vivente.
Ah, irmão!
Sê correto: não mente.
Se queres ser instrumento de Jesus
Não segue as trevas, e sim a luz!