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segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Marcando o tempo pelos arrepios

Conheci o poeta Carlos Nóbrega quando trabalhei em um programa de cultura em uma rádio há alguns anos. Não ele pessoalmente, mas a poesia dele (que não deixa de traduzi-lo). Desde então sempre leio e releio os 2 livros que tenho: Breviário e Árvore de manivelas. Quero encontrar os outros e devorá-los como fiz com esses que moram na minha prateleira.

Hoje esse poema do livro "Árvore de manivelas" me encontrou:

"Tempo não é dinheiro
Carlos Nóbrega

Eu marco o tempo pelos carneiros
que vivem nas nuvens
e que se desmancham em rostos e nada.
Marco o tempo pelo vôo das pipas
o cair dos dentes
e o nascer dos seios.
Eu marco o tempo pelos arrepios."

Leiam entrevista recente com ele aqui

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Inverno

Qual estação do ano é você?

"Você é reservado e cauteloso quanto à amizades, seleciona muito bem quem o rodeia. Também gosta de estar sozinho e não vê isso de forma deprimente. Prefere optar por caminhos seguros e não gosta muito de se arriscar. Trocaria tudo por uma noite cercada de pessoas queridas, em volta de uma lareira, tomando chocolate quente ou um bom vinho. Você gosta mesmo é de ler um bom livro. Cuidado para não parecer anti-social!"

segunda-feira, março 01, 2010

Metade





Não queria mais postar aqui textos que não fossem meus, mas esse é tão inteiramente direcionado para o que penso e com o momento, que é impossível não compartilhá-lo aqui. E "que as palavras que eu falo/ sejam apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos".





"Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também"

Ferreira Gullar