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terça-feira, abril 27, 2010

Mas vai ser.


A cidade dorme. Na rua, o gato mia, mas tão de levinho que parece mais uma alma de outro mundo. Até ele respeita o sono, a noite, o silêncio profundo. Tem uma casa onde um pai chora, abraça uma mãe desesperadamente dolorida.

Um pai perdeu seu filho e se encheu de dor. Um filho perdeu sua vida e mudou-se com sua alma para longe. Dores se espalhavam pela cidade que dormia. Dores que gritavam, dilaceravam os ouvidos do coração. Lá dentro, quem sofria, ouvia bem o grito, o choro. Mas só lá dentro, dentro de si.

Milhares de dores, milhões. Filhos que se foram, amigos que se foram. Insegurança, egoísmo, traição, orgulho. Tudo o que gerava milhões, milhões de choros incontidos, de sofrimentos que gritavam por dentro, que implodiam lentamente, se é que é possível, quem os sentia.

Do outro lado da cidade, amigos separavam-se de amigos com muitas lágrimas nos olhos. Eram corpos inteiros que choravam, choravam por inteiro, desmanchavam-se.

A cidade escura e silenciosa guardava diversos corações. Uns dilacerados, uns bem feridos. Uns tão escuros, derramavam líquido viscoso e negro que se espalhava, espalhava seu odor e pouco a pouco poluía o ambiente, fazia arder os corações feridos, magoava-os tanto. A cidade quente às vezes ficava, sim, muito gelada.

Mas tinha alguém aspergindo um aroma de lavanda num cantinho da cidade quente-gelada. Tinha alguém desvestindo o preto e colocando cores, distribuindo sorrisinhos, gentilezas. Tinha alguém ofertando curativos , sedativos, paliativos para os dilacerados. Esses 'alguéns' eram os mesmos que faziam passar a noite e ligavam a luz do Sol. Como uma grande mão que abre uma janela blackout pra deixar a luz entrar. Tudo esquentava mais uma vez. O ar puro da manhã inundava tudo e os líquidos pretos, as invejas, as traições, os egoísmos, escondiam-se, iam morrendo, porque não suportam luz. A coisa acontecia assim, nos cantinhos da cidade. Era assim sempre, na cidade. E todo mundo chegava à conclusão de que isso era a vida. E quem disse que ela é bela?

terça-feira, março 02, 2010

Qualquer coisa aqui dentro.

Qualquer coisa de saudade,
Qualquer coisa de desejo,
Qualquer coisa de querer.

Qualquer coisa de loucura,
Qualquer coisa de voar,
Qualquer coisa de querer
ir ou ficar. Viver.

Qualquer coisa de sonhar,
Qualquer coisa de morrer.

E aos poucos renascer:
Novo, mas igual.
Igual, mas diferente.

Bem por aqui, por dentro de mim
Qualquer coisa pulsa.
Sem cessar.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Só não me deixe assim tão solta.

Eu posso suportar bater o dedo mindinho nas quinas da vida. Posso agüentar comer menos, cortar o açúcar e até o chocolate. Até pepino e alface crespa eu agüento. Posso tolerar pessoas falsas ao meu redor. Posso conseguir acordar cedo todos os dias e correr em uma esteira de uma academia de bairro.

Mas, não, não me deixe assim tão solta. Porque quando você solta da minha mão me dá um quê de nervoso, um quê de abandono. Faça a gentileza de me querer, de me prender. Saiba ser meio meu, meio do mundo. Mas que eu sinta que posso competir com o mundo. Que às vezes eu preciso de um cais pra aportar, de um abraço pra me aconchegar. Preciso de uma poesia real para pôr no papel. Preciso ter certeza de que minha música tem dono. Preciso dar espaço no meu colo. Entre meus braços há um vazio triste. Meus dedos pedem alguém pra afagar. E os meus pés querem um par de companhia.

Não, não me deixe solta por aí, que eu posso me perder. E aí quem é que vai me achar?

segunda-feira, janeiro 18, 2010

É que eu sou tímida.

É um vento soprando, é um frio. É música, poesia, amor, é vento, é frio, é morno, é quente. Tudo ao mesmo tempo. Disseram que é amor. E deve ser, porque alguma coisa ameaça explodir, de 5 em 5 minutos, aqui dentro.

E é um fechar de olhos para abrir e constatar: não é sonho. É mão, é braço, é ombro, é boca. É vida pulsando. Eu, pulsando.

É tudo pra você. Tudo. E porque é que eu não digo? É que eu sou tímida. Mas, no fim da contas, precisa?


"Assim
Ruivo e do meu tamanho
Assim
Míope e descabelado
Assim
Louco e apaixonado
Extrovertido
Quente
Diferente
Ardente
Tímido
Original".
(Sua)