quarta-feira, março 03, 2010
terça-feira, março 02, 2010
Qualquer coisa aqui dentro.
Qualquer coisa de saudade,
Qualquer coisa de desejo,
Qualquer coisa de querer.
Qualquer coisa de loucura,
Qualquer coisa de voar,
Qualquer coisa de querer
ir ou ficar. Viver.
Qualquer coisa de sonhar,
Qualquer coisa de morrer.
E aos poucos renascer:
Novo, mas igual.
Igual, mas diferente.
Bem por aqui, por dentro de mim
Qualquer coisa pulsa.
Sem cessar.
Qualquer coisa de desejo,
Qualquer coisa de querer.
Qualquer coisa de loucura,
Qualquer coisa de voar,
Qualquer coisa de querer
ir ou ficar. Viver.
Qualquer coisa de sonhar,
Qualquer coisa de morrer.
E aos poucos renascer:
Novo, mas igual.
Igual, mas diferente.
Bem por aqui, por dentro de mim
Qualquer coisa pulsa.
Sem cessar.
O dono do estacionamento

Seu Martônio não sabia sorrir. Andava para lá e para cá naquele estacionamento dele. E explorava todo mundo. Os preços lá em cima. Seu Martônio era um velho ranzinza e não parecia agradar nem a Dona Gertrudes, a mulher dele. A Ger passava o dia sentada atrás do balcão, recebendo o dinheiro de quem estacionava ali. 5 reais a hora. E lotava. A Ger só sabia era reclamar, dizia seu Martônio. E saía bodejando qualquer coisa ininteligível.
A única coisa que fazia o velho sorrir eram os filhos. Ah, que Quinzim estava que era um homão. E consertava qualquer coisa, sabia? Jonas estuda muito, mora no exterior, sabia? E apontava com o dedo cheio de artrite pro retratos em cima da mesa. Se seu Martônio queria aumentar o preço do aluguel mensal de uma vaga, que deveria ser pago religiosamente no dia 10 de cada mês, bastava puxar o assunto da filharada. Era a tática. "E os meninos, como é que vão?". Aí o homem mudava o semblante.
Mas parecia é que os "meninos" não estavam nem aí pro Martônio. Sei lá quem era a mãe deles. Dona Gertrudes é que não era. Cabelos vermelho-acaju bem compridos, as unhas postiças e a maquiagem pesada. Uns vinte anos mais nova que seu Martônio. O que não significa que ela era exatamente o que se pode chamar de jovem... Não estava nem aí pros "garotos". E nem poderia: eles nunca passavam por ali. Eles eram uma espécie de filhos-fantasma. Parecia que os anjinhos já tinham partido, porque eu mesma só conhecia era nas fotografias. E embora o velho falasse horrores dos feitos dos meninos, nunca tocava no assunto "visita". Ele parecia se contentar em saber que os filhos eram bem-sucedidos. Ou fantasiava.
Um dia fui pagar a mensalidade e estava lá um rapazinho até bem apessoado, uns 25 anos nos couros. Comia um sanduíche gigante bem devagarzinho e tomava uma coca-cola na garrafa de vidro. "Quer mais? A Ger faz um pudim...", era o seu Martônio quem ficava repetindo. Eu cheguei com o dinheiro e ele recebeu feliz (esqueci de dizer que o dinheiro também acalmava o homem que era uma beleza). Aí o velho me apresentou o filho. Era o Quinzim. Um "homão". "Consertava qualquer coisa, que esse curso de engenharia era uma beleza". O rapaz sorria constrangido. "Coma, meu filho, coma". Eu soltei algo como um "muito prazer" e tratei de sair com meu recibo. Era uma relação estranha. A Dona Ger olhava, meio que penalizada com a abobalhação do marido.
Eu vi quando o menino atravessou a rua, ainda meio constragido, parecendo não querer voltar mais. E vi seu Martônio no comecinho da noite, sentado no banquinho velho, olhando pra rua. Perdido. Meio sandubão repousava ainda em cima do balcão, a garrafa de coca-cola vazia ao lado. Uma mosca se interessava pelos restos. A Ger digitava alguma coisa no computador. E o silêncio do seu Martônio. Passei ligeiro do lado. O velho acordou do transe. Reclamou do cansaço e saiu por aí, bodejando. Foi abrir o portão falando uns impropérios pra Gertrudes.
É que a raiva muitas vezes é só um escudo para se proteger de uma solidão sem fim. Só que de qualquer jeito dói.
segunda-feira, março 01, 2010
Chegou março

E, aliás, começou março.
Março: 2 parcelas do IPVA pra pagar, começar a reunir documentos para declarar imposto de renda, estudar muita coisa, pagar muitas contas (a perder de vista...), cobrar coisas, vender coisas.
Março: 4 meses de namoro, férias do Dudu (aguentem a invejinha do ócio dele), aulas dos amigos a pleno vapor, 3 meses para minhas próprias férias, editar bastante, comer menos (sempre isso), fazer jus à parcela da academia, escrever, escrever, escrever. Preparar aulas, organizar um quarto onde nem eu me acho, ler livros, milhares. "O amor nos tempos do cólera", emprestado por uma amiga do curso de alemão. "O Evangelho segundo o Espiritismo" sempre, para me dar paz. "Chatô: o rei do Brasil", um livro usado que ganhei há anos e nunca consegui ler todo. "O Mundo de Sofia", da Alana. Uns contos de Chrles Perrault, gentilmente presenteados pela Si no meu aniversário. Umas apostilas, uns livros de alemão.
Março: sem perder tempo com o que não vale à pena. Cortei fazenda virtual, diminuí visitas ao orkut. Essas coisas ampliam nosso tempo perdido. Chega de joguinhos. Ver amigos que há muito não vejo. Conversar. Deixar de adiar encontros e organizar um tempo para tudo. Dançar mais. Ver filmes. Não esquecer esse espaço, que treina minha escrita e funciona como uma catarse. Amar. Viver. Cantar. Sim, tenho que escrever para lembrar, porque às vezes eu esqueço.
Olá, 1º de março de 2010. Chegou cedo?! Que você renda boas lembranças, porque um março nunca é igual a outro.
Metade

Não queria mais postar aqui textos que não fossem meus, mas esse é tão inteiramente direcionado para o que penso e com o momento, que é impossível não compartilhá-lo aqui. E "que as palavras que eu falo/ sejam apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos".
"Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.
E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.
Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também"
Ferreira Gullar
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