
Onde é que ela estava? Onde foi parar, onde? Passou a vida procurando, procurando. Mas ela passa o tempo se escondendo, a danada. Quando criança achava que viajar para aquele sítio era um sonho. E nem era dela, o sítio. Mas ela gostava, sim. Amava mergulhar naquela piscina e se esconder naqueles armários gigantes. Corria, subia nas árvores, pegava os bichos e os bichos a pegavam. Naqueles tempos ela sentia bem ali na mão, a felicidade. Mas como fugia, a danada. E como foge! Nessinstante tava aqui e depois... depois virou lembrança. Ela foi crescendo e também a cara daquele lugar mágico. E, saudosa, ela lembrava do tempo que passava horas passeando com as bonecas no lugar. E o parquinho? Ah, o parquinho era essencial. Era lá que ela brincava e depois de preparar tortas de lama e se sujar toda, banhava-se na bica e caía na piscina de novo. Mas agora o parquinho tinha perdido o brilho, sabe? Ou era ela que tinha crescido? Não, foi o tempo. O tempo, meu amigo, o tempo não brinca, ninguém fica parado nele. E ela, que queria mergulhar os momentos no formol, se sentia melancólica. Mas o sítio ainda tinha sua magia. Pois não era lá que ela ia com os novos amigos? Os do peito, os essenciais, que faziam ela se sentir querida. E eram tardes de piscina e convivência e brincadeiras e música, muita música. E ela achava de novo a felicidade. E parecia que o sítio também percebia que a danada havia voltado. Tempos áureos de novo, o sítio pressentia. Era alegria dentro da casa. Ela já não cabia nos armários, que estavam sendo devorados por alguns raros e famintos cupins. Mas ela ainda cabia nos lugares. E as madrugadas dali escondiam segredos que morreriam ali. E ficariam lembranças, muitas lembranças. E ficaram. Porque mais uma vez o tempo, esse implacável, varreu tudo e se teve de começar tudo de novo. Ela que agora nem mais tempo tinha, quando conseguiu voltar no sítio, sentiu dó, melancolia, saudade e tristeza, tudo junto. Porque ela tinha certeza de que tinha esquecido a danada da felicidade ali. Mas quando chegou só encontrou guarda-roupas carcomidos, parquinho com teias de aranha e um morador solitário que vigiava mais seus pensamentos do que a própria casa, balançando um corpo semi-inerte para lá e para cá numa cadeira de balanço. Talvez fosse necessário procurar a danada em outras paragens. Mas a pergunta era: quais? Não sabia. Pegou uma mala, encheu com suas lembranças e foi embora sem olhar para trás. Ao longe, o barulho repetitivo da cadeira de balanço do velho morador.
"Natural é ter um trabalho, um salário
Um emprego
Nome confiável
Respeito na praça
Mas afinal o que é felicidade?
É sossego
Nesse mundo pequeno
De tempo e espaço
Ela só vem dizer que quem nasceu já conquistou
O reino de Deus é um direito
Não é um milagre"



