segunda-feira, agosto 04, 2008

"Essas marés montantes do passado"

Hoje eu vou falar de música. Existem músicas e músicas. E existem também gostos e gostos. Mas tem isso: ainda que eu ame o Ney Matogrosso e você não o suporte (morra, morra!) e ainda que eu abomine "Aviões do Forró" (Oi? O blog é meu e eu não consigo deixar esse nome do mesmo tamanho do do Ney) e muitos seres deste Ceará amem, música imprime, marca mesmo. Seja uma letra marcante seja um popzinho sem graça, todo mundo tem a sua música. Não tem quem não pense em alguém ou algo quando ouve aquela música. Ou naquela situação. Ou naquele fim-de-semana.

Para mim a vida só funciona com trilha sonora. Às vezes eu me acho meio Truman. Parece que minha vida é um filme estranho, e eu já escolhi a trilha sonora de cada ceninha dele (Ca-la-ro que Ney está em muitos destes momentos). De vez em quando eu me pego pensando em alguns momentos da minha vida e a música sai rolando na minha cabeça, como se fosse uma cena de filme mesmo. Tem coisa mais legal do que ouvir aquela música que você não ouve há cem anos e lembrar daquela florzinha que você ganhou naquele momento especial? Ou daquelas manhãs de domingo? Vem aquele estremecimento repentino e automaticamente vêm as lembranças.

Djavan me lembra manhãs de domingo quando eu era criancinha e ainda dançava pisando nos pés do meu pai. E tem aquela do Milton Nascimento que o meu pai cantava para eu dormir e dá vontade de chorar quando ouço: "Porque ainda é inverno em nosso coração/Essa canção é para cantar/ Como a cigarra acende o verão/ E ilumina o ar/ Si, si, si, si, si, si, si, si...".

Tem todas as da Legião Urbana que são minha adolescência, quando eu colecionava letras de música, morria de amores, não dava bom dia pras pessoas e só usava saia jeans e blusas com a cara do Renato Russo estampada ("Tenho andado distraído/ Impaciente e indeciso/ E ainda estou confuso/ Só que agora é diferente/ Estou tão tranqüilo/ E tão contente").

Tem aquela breguinha do David Duarte (e que adouro), "O que eu queria" que me lembra meu primeiro beijo (que puro :~). E tem também a do Paulinho Moska, que me lembra meu primeiro amor: "Eu estou pensando em você./ Pensando em nunca mais/ Pensar em te esquecer" (que puro :~ [2]).

E embora eu tenho um medo horrível a essas marés montantes de passado (como diria Quintana) é sempre bom relembrar o passado. O bom e o ruim. (Tá, nem sempre é bom, mas às vezes vem sem querer).

Kenny G me lembra minha mãe. Ednardo me lembra Pacoti. O Teatro Mágico me lembra Alana. Los Hermanos me lembra Nayana. Kid Abelha me lembra Gisele. Bethânia me lembra Eduardo. Música brega me lembra Joélia. Beto Barbosa me lembra a Fáti ("Tens de me dar...", xD). Fuscão Preto me lembra o AVE. 80's me lembra Simone. Ah, e tem a música da "manga de vez", que só me lembra da Dháfine! E tem mais mil que me lembram mais coisas, histórias, pessoas, lugares.

E eu poderia passar horas falando das músicas marcantes na minha vida. De momentos especiais. De pessoas especiais. De acordes especiais. De espaços especiais.

Agora me diz: qual é a sua música especial?

E bem aqui vem a minha especial. A do momento. A de sempre.
"Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo/ Eu acordei com medo e procurei no escuro/ Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo/ Porque o passado me traz uma lembrança/ Do tempo que eu era criança/ E o medo era motivo de choro/ Desculpa pra um abraço ou um consolo/ Hoje eu acordei com medo mas não chorei/ Nem reclamei abrigo/ Do escuro eu via um infinito sem presente/ Passado ou futuro/ Senti um abraço forte, já não era medo/ Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim/ De repente a gente vê que perdeu/ Ou está perdendo alguma coisa/ Morna e ingênua/ Que vai ficando no caminho/Que era escuro e frio mas também bonito/ Porque era / iluminado/ Pela beleza do que aconteceu/ Há minutos atrás".

quarta-feira, julho 30, 2008

Sair

Sabe, abri e fechei esse blog milhares de vezes até voltar definitivamente, agora. Agora ele tem mais minha cara, meio alegre, meio escuro, meio amarelado pelo tempo, meio novo e fresco. Uma brisa geladinha que chega de repente pra refrescar ou para fazer tremer.

Hoje esse blog meu querido vai dizer "bem-vindos" para todos e vai reviver. Comentar o que aconteceu, o que não aconteceu e o que deveria acontecer. Ser meio de comunicação só para mim mesma, para vocês que passarem por aqui ou para ninguém (quéquetem?). O importante é dar o primeiro passo. É sempre o mais importante: sair da inércia. Saí. Vem comigo?


"Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso"

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O óbvio


Quando ela resolveu sair de casa e atravessar a rua naquele dia, não percebeu que o Sol brilhava forte lá em cima. Não percebeu a brisa que previa um dia bom. Não quis notar que as crianças risonhas, não riam só para as mães e para as babás. Elas riam também para o mundo lá fora. Mas, não, ela não fez o mínimo esforço para notar a paz mágica do sorriso das crianças, a sinfonia rara dos pássaros em uma manhã radiante. Quando ela atravessou a rua, fez questão de simplesmente atravessar. Atravessar e suspirar, enfim, por mais um dia.

No fundo, ela se recriminava por só notar as pequenas alegrias tarde demais. Ela se recriminava por não saber ser uma Poliana e achar graça em tudo. Ela chegava a se desprezar por ter tanto, e ainda assim, ser um ser vazio. Sim, era verdade. Não havia como negar, parecia mesmo que estava impresso bem na ponta do seu nariz, numa placa grande com letras de forma vermelhas: empty (em inglês, para dar um ar mais hollywoodiano). Mas não era de manhã que ela refletia sobre isso. Não, não. A coisa pegava mesmo de tardezinha, quando a poeira quente da tarde vinha anunciando que mais uma noite estava chegando. "Mais um dia, pobre dia", ela pensava.

Mas aquela manhã veio diferente. Ela só ainda não sabia. Ela continuava com trabalho, com família, com dinheiro, com amigos, com lazer e com vazio. Ela continuava caminhando a passos lentos. Mas definitivamente aquela manhã chegou cheia de ar puro. (Tá, bem lá no fundinho ela até notou um brilho esquisito no raio de sol que refletia nos lábios coloridos de gloss rosa, da mocinha que corria mais adiante).

Engraçado, eu posso ouvir você dizendo que ela encontrou um novo amor, ou que uma criança inteligente disse coisas espetaculares que mudaram a vida dEla para sempre. É engraçado como as pessoas tentam adivinhar os finais das histórias! Mas, não, você está completa e redondamente enganada (enganadA, pois sei que raros homens lêem esse blog, e que eles não ficarão ofendidos com o tom segregador). Nada disso aconteceu, cara leitora. Na verdade, talvez você fique decepcionada quando souber que tudo se deu com um tombo. Não, ela não tombou com alguém incrível, ela não foi hospitalizada e viu a vida passar diante dos olhos em alguns segundos. Ela só levou um tombo. Mais um tombo. Num meio fio. Foi apenas uma torçãozinha leve que levou os grandes olhos dela pro chão do jardim da praça. Foi o suficiente.

Ela não quis mais levantar, sabe? Pela primeira vez ela viu duas joaninhas vermelhas de bolinhas pretas andando calmamente pela grama. Ela viu filhotes de flores lutando para crescerem. Ela viu botões de rosa desabrochando num espetáculo simples e lentíssimo. Lentissimamente ela percebeu um mundo minúsculo. Algo que não chegava perto do filme "Vida de Inseto", tsc tsc. Insetos não falam. Eles andam, trabalham, têm família. Eles nascem, crescem, reproduzem-se e morrem. Flores também não falam (e, coitadas, não têm famílias).

Você deve estar se perguntando: "sim, mas o que tem isso demais?". É aí que está! Isso TEM demais! E são só insetos, puxa! Ela pensou primeiro: "os insetos são felizes". Mas foi aí que ela notou como aquele comentário era estúpido. Estúpido, sim. Insetos não são felizes! Insetos são insetos. Seus pequenos cerebrozinhos (licencinha poética, amigos) não pensam, propriamente. Eles mantêm a estúpida vidinha de um inseto: nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. Foi Darwin quem disse: eles não evoluíram tanto quanto um humano, não.

Humanos, sim, pensam. Humanos, sim, podem construir cidades do jeito que querem, podem fazer músicas diferentes, podem inventar refeições diferentes todo dia (você já viu algum passarinho comendo minhoca ao molho, han?). E porque os humanos pensam? Talvez porque eles não estejam aqui só para nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. Não é mágico? O que não faz um tombo para um ser com cérebro que só pega no tranco. Você já notou como se demora para descobrir o óbvio? Humanos são mesmo bichos engraçados.

P.S.: Não, ela não ficou feliz para sempre. Ela aprendeu a pensar. Ela aprendeu a notar o óbvio. Não é óbvio?

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Que fabuloso destino?


Ariane nasceu em um dia feliz de 1987. Não deu trabalho, chorou na hora certa e dormiu (até demais). Hoje, continua não dando trabalho e dormindo demais, embora agora chore nas horas erradas. Gosta de: cheiro de terra molhada de chuva, janelas de vidro, ouvir o canto dos pássaros, relembrar músicas antigas, risadas de crianças, lugares cheios de verde, piscar o olho, dar língua, ler quadrinhos e poder rir alto, cortar os cabelos, frio, agasalho e tascar o dedo na sobremesa quando ninguém está olhando. Não gosta de: Crianças que batem nos pais, pais que batem em crianças, piqui no feijão, animais maltratados, cinema lotado, lugares sem janelas, calor, sol forte demais, injustiça e falta de educação. Ariane não tem muitos amigos, mas se contenta em pensar com carinho em cada um dos que conseguiu cativar e em cada um dos que a cativaram. Ela vive sua vidinha corriqueira, usando a mesma colônia pós-banho e lendo seus livrinhos antes de dormir. Quem sabe um dia, algo aconteça e, de repente, mude completamente a vida da pequena Ariane. Ou quem sabe, mesmo, ela descubra que é bem feliz do jeito que leva sua vidinha, ora lenta, ora acelerada, mas sempre cheia de pequenas alegrias.

sábado, setembro 01, 2007



Disse que era um dedão do pé que não sabia sorrir. Disse também que ele vivia triste, macambúzio, apertado naqueles tênis azuis chulezentos (urgh). Disse que ele era assim porque queria ver o mar, sentir a brisa correndo bem em cima da sua unha, remexer na areia igualzinho àqueles cachorros sem dono que vivem livres pra sambar por aí. Mas ele tinha nascido dedão do pé. E os dedões do pé estão fadados a viver escondidos nos sapatos apertados das pessoas. Pelo menos ele vivia pregado ao pezinho de uma criança, que de vez em quando jogava futebol descalça sem que a mãe visse. Ah, horas felizes, aquelas em que ele ficava bem pertinho da areia quente, impulsionando o pé pra frente, correndo atrás da bola dente de leite.
Um dia a criança dona do pé ouviu um grunhidinho longe, meio sentido. Pois não é que vinha bem de lá, do dedão do pé esquerdo? (É, porque as crianças, sim, tem o poder de ouvir tudo, tudinho, com o coração). E ela olhou pra baixo e ouviu os lamentos do pobre do dedão do pé. Ele queria respirar, ué! Ver as coisas, sentir o vento, pular aqui e acolá. E, você sabe, criança é o ser mais sensível que existe. Disse que, agora, ela esconde o tênis e só sai de sandalhinha de dedo. E que vai mais à praia e que remexe horas na areia com seus pezinhos número 30. Disse também que ela pegou uma canetinha cor dos amores-perfeitos e desenhou um sorrisão bem na cara do dedão do pé mais feliz do mundo.

"É o mundo que anda hostil. É o mundo que anda hostil"